Nem tudo é como a gente espera que seja. Todos projetamos o momento seguinte, mas ele sempre se constrói do seu próprio jeito, seja em um detalhe ou seja no todo. O futuro é incerto, a vida é dura, cada passo requer muita atenção, e nem sempre nós temos isso em mente entre o acordar e o dormir. É preciso escovar os dentes preparado para a pia cair no seu pé. É preciso almoçar esperando o momento de engasgar. É preciso ir pro trabalho sabendo da possibilidade de um atropelamento, de um assalto ou de uma demissão. É preciso ter consciência de tudo isso e, mesmo assim, não ter medo das mazelas, do azar, do destino. Viver é um ato de teimosia, é uma briga com o acaso que travamos cotidianamente. As vezes estamos vencendo essa briga e as vezes não, enquanto você não desistir dela existe margem para o controle do que acontece com sua vida.
Tenha certeza de que a pia cairá no seu pé, que irá se engasgar com o almoço, que um carro lhe atropelará, que será assaltado, que será demitido, que tudo de ruim no mundo vai acontecer, mas, mesmo assim, siga adiante e arrisque o próximo passo.
Em 03/08/2012.
domingo, 5 de janeiro de 2014
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
A Rota dos Aviões.
Estou
na rota dos carros alucinados, perigosos nessa vibrante onda de maldade e
doença a percorrer as casas de todas as vitimas do medo contemporâneo. Não há
promessa de amparo que seja fiel à nossa confiança, uma vez que somos
diariamente enganados pelo laço perverso dos gênios maus da nossa vila de
misérias, e qualquer conselho de conforto é mais desesperador do que a sensação
de presença nos pontos mais enterrados do inferno desconhecido. Estou na rota
dos aviões que viajam irresponsavelmente sobre o céu da minha boca, expulsando
o veneno da facilidade dos dias de hoje, conduzindo, assim, o homem ignorante,
burro e imprestável ao estado mais agudo de preguiça e estagnação mental. O
mundo merece a morte pela via do cansaço, conduzindo a humanidade ao mais
completo estado de abandono e desprezo. Para além dessa carne podre que somos
ainda há estruturas para nós incompreensíveis e que expressam mistérios na onda
terrestre de vestígios de solidão perfurada na ilusão familiar que muitos,
tomados por uma carga confusa de sentimentos, ora buscam e ora ignoram, sem
saber ao certo o peso pleno de suas ações.
Estou
na rota dos aviões, vendo lá longe a complexidade desinteressante dos
edifícios, mais para cima vejo o azul do céu que, imagino, se formos num
caminho direto, constante e eterno, não chegaremos a lugar nenhum. As pessoas
não são mais capazes de me despertar curiosidade e a chave da minha mente
retraída não é mais capaz de abrir sequer o cadeado da cadeia onde estou. Na
rota dos aviões não há nada além de espaços ocupados por mentes em atraso. Que
coisa mais estúpida é a humanidade! O ódio é o sentimento da vez e os homens se
rasgam em suas cascas ímpares e incapazes de qualquer grau de associação. O
choro é a atividade física do dia. O corpo nada mais é do que um monturo de
biologia vencida pelo lixo moderno de nossos erros tão comuns e incapazes de
qualquer intenção de correção. E o mundo rola numa esteira descartadora indo
parar no vale da sombra da morte, aquele vale sinistro, bíblico mesmo, onde a
marcha desorganizada dificulta a chegada em qualquer lugar. Meu coração é
negro, terrível, ansioso por cometer crimes que envolva sangue e todas essas
coisas que despertem a dor geral e que marquem o fim desse triste ano e dessa
triste ordem temporal de nossa consciência corrompida pelos tesouros menores
dessa terra odiosa e incapaz de qualquer nível de avanço.
Mas
o que podemos esperar de nossos corações, tão treinados a funcionar tal qual
máquinas descartáveis produzidas em Taiwan? E no silêncio do escuro da noite
ouço uma voz que chama minha irmã, é uma experiência estranha diante de todas
as certezas que temos quando estamos aptos a tocar em todas as nossas certezas,
que são físicas, puramente físicas. Aí eu me lembro do amor, da obrigação
necessária de amar, da manifestação positiva do amor, coisas que ninguém mais
parece lembrar. O amor é uma coisa muito estranha, do ponto de vista das coisas
que compõem as ruas em que corremos, apressados, incapazes de perceber na cara
dos nossos irmãos qualquer expressão que seja: não vemos dor, nem satisfação,
nem desejo de ser socorrido, nada disso, porque nós corremos muito, uns
carregando muito amor, mas outros carregando muita aflição, e outros mais
carregando todos os sentimentos que há no mundo, numa postura sofrida por estar
sendo estranhamente devorado pela fome dos calendários egoístas na sua
determinação do tempo amargo, de cheiro insuportável e que mata perversamente a
vida que ainda teima em existir sobre a terra.
Eu,
que estou na rota dos aviões, de tanto me iludir com esse sonho ausente do
real, vagando por espaços que não me suportam, acabei sendo atropelado por um
avião da tam e morri no dia marcado para o fim do mundo, mas essa nem
Nostradamus esperava, nem a civilização maia, reduzida a um punhado de famintos
pelo decorrer do tempo. O mundo não acabou, mas eu morri a partir do momento
que percebi o clima de chatice que me cobria. No lugar onde estou eu procurei
consultar a sabedoria dos filósofos gregos, dos altos líderes católicos, dos
curandeiros ameríndios e dos cientistas árabes e vi, lá além daquele monte de
bandeiras de amor, pessoas que expandiam a mente e apontavam para o grande
mecanismo perverso que rege as civilizações, lançando ao vento furioso os mais
diversos insultos capazes de abalar com força qualquer juízo inocente alheio a
tudo isso. Eu vi os sonhos dos animais serem confeccionados na selva calma dos
espíritos mansos e, do outro lado do espelho eu percebi as fossas abertas
lançando sujeira na porta das donas de casa ocupadas em tecerem fofocas sobre
as filhas alheias. Eu, que estava na rota dos aviões, fui lançado em outros
mundos para repensar tudo o que eu já pensava, e até mesmo a bananeira
espacial, bonita, sábia e amiga me privou de suas considerações acerca do que
acontecia no espaço de seu caule e de suas raízes. Pensei, como todo mundo
pensa algum dia, em materializar o crime insano de, com um facão na mão, cortar
freneticamente a bananeira, vendo suas fibras caírem, retalhadas, sobre o solo
lamacento que eu fiz para desenvolver sua vida, mas deixei para lá. O mundo é
isso mesmo: um corredor decorado com obras da arte de produzir injustiças...
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Sobre o teorema da corda quebrada.
No meio de tantas reflexões, vejo um cara perdido nas tentativas enfileiradas de montar todas aquelas peças espalhadas pelo chão, e foi montando, montando, que se foi criando sentido, foi se mostrando coerência e ele foi, pouco a pouco, solucionando problemas que emergiam nas faturas vencidas do cartão e no desespero incerto de alternativas mais urgentes. As câmeras na mão tentam registrar o incompreensível no tal teorema da corda quebrada.O lápis se guia no sentido de esclarecer o teorema da corda quebrada. As redes armadas na varanda não suportam o peso por razão da corda quebrada, e o teorema voa como um míssil israelense na direção do rosto dos estudiosos que não se sustentam sem a corda inteira. Se o peso é grande, a corda quebra e o espírito cai por não suportar além do que ele pode suportar. Essa é a corda quebrada da nossa existência, dos casos ocultos nas linhas de nossos livros que quebram nossos estudos e enfeitiça os curiosos, envenenando o ar com a matemática do absurdo na engenharia perfeita de todos os nossos erros, do holocausto e do napalm a absorver a saúde das crianças e da humanidade em si, na fumaça da fogueira insana a escurecer a vista dos pássaros perdidos nos cabelos mortos das múmias famintas. A corda quebrada quebra nossos elos, sufoca nossas vontades, escraviza os pequenos e prende nossos punhos, já impossíveis de suportar a força e a pressão contra nossa carne. O sangue não corre pois a corda não quebra, e ouço a palavra "quebrada" dentro da minha cabeça, enquanto as tradições beijam o dinheiro daqueles que acenam e dizem "adeus" para o Brasil e toda a sua vergonha caracterizada no seu atraso e no seu amadorismo enquanto projeto de nação. Esse é o teorema da corda quebrada, e nem Arquimedes, nem Descartes, nem os mais expressivos matemáticos árabes ou marcianos saberiam solucionar ele com a mesma irresponsabilidade que eu assumi aqui para solucioná-lo.
Adeus terra das brincadeiras tristes, sempre te odiarei, e se acaso eu voltar, esganarei tua garganta com a ultima trança confeccionada com a insanidade do que sobrou desta bendita corda quebrada.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Chovendo espera.
São
estas as minhas esperas: penso que a chuva já deveria chegar para lavar nossa
calçada e talvez nos servir de alegria nas nossas brincadeiras sob as bicas
d’água da nossa nova rua. Como seria bom molhar o rosto e afastar esse calor
insuportável do meio dia, trazendo para a minha carne a sensação gostosa de
vida, vendo essa água escorrer pelas minhas mãos, molhando os cachos dos meus
cabelos, curtindo os pingos que se formam no espaço desse céu cor de metal que
pertence exclusivamente a nós. Penso que a chuva virá na urgência própria dos
que espera uma boa noticia, e brincaremos muito, esquecendo o cansaço diário
das chatices que invadem nossas cabeças. Assim, por desejar essa vida,
esqueceremos nossas responsabilidades de adultos e libertaremos essa infância
adormecida por trás de nossa retina, que deseja muito voar sobre a cabeça de
nossas preocupações. Aí eu te vejo tão assim, paradinha, quieta no que sente,
que eu fico pensando em tudo isso e fico triste porque não dá pra ser da
maneira que eu espero. Amanhã eu vestirei a camisa que não preciso, passarei os
dedos entre os cabelos, afastando-os dos olhos e sairei de casa, abrindo meu
corpo aos perigos da vida, atravessando aquele campinho esturricado pelo sol
forte a ponto de me cegar e, como sempre é, vou olhando, desconfiado, para cada
lado da rua, vendo as coisas encobertas pelas cascas feias do caos urbano, das
feras que povoam esses bairros tristes em suas irregularidades estruturais e em
tudo que me desperta desgosto de viver da maneira que não quero. É triste
dividir a cadeira do ônibus com pessoas que não conheço, e que talvez nunca
mais vou ver. É triste viver fora do lar, fora dos planos adequados para as
nossas reais naturezas. Mas também é fantástico encontrar em cada retorno à
nossa casa o universo que nós escolhemos para nós. Cada coisa desse espaço é
muito parecido com nós mesmos, tudo da maneira que queremos e construímos, tudo
muito pertencente a nós, que fazemos tudo isso com muito amor no coração. E
era, como ainda é, agradável ver o tempo passar através dos teus olhos: não há
dia, não há noite, nem muito menos aquela hora meio claro meio escuro, o que há no nosso tempo é a eterna alegria
das horas dos teus olhos, pois são neles que eu vejo a necessidade de dormir,
de acordar, de caminhar na estrela espiritual de tua mão auxiliadora que
empunha a flor de nossa jornada, lançando pelas dunas que se formam na concha
de minhas mãos o cheiro de planta molhada pela chuva que, de tanto esperarmos,
chegou como as vozes dos meninos brincadores dos quintais de nossos projetos e
desejos. Da janela surge as galhadas daquela árvore bonita que permanece serena
diante da rotina atormentadora de dias, semanas, meses e tempos incorruptíveis
pelos vícios do meu relógio desesperado de tanto desejar a hora do retorno à
paz, e quando eu finalmente sento e me aquieto, eu vejo os espíritos das horas
de sossego que chegam sempre, sem maiores reservas, para falar sobre àquelas
coisas que eu não compreendo, mas que gosto de ouvir, porque traz sempre na
sonoridade das palavras a mensagem serena de alerta sobre todas as coisas que
muitas vezes não nos atentamos. Mas a paz da tua mão rompe todas as barreiras
da alegria e do tédio, mexe com o espaço num vendaval de sensações e lança
todas as aflições para o alto, fazendo cair sobre o telhado das casas apenas a chuva
de todas as nossas esperas.
O Homem.
Por fim o homem, aquele que é base e ponta de todas as dores, que pronuncia o pecado sobre o ombro do amor e que manifesta qualquer maldade nas páginas de suas principais lembranças de menino. Esse é o homem, humano, pai das tormentas e órgão vital da natureza infeccionada. Ele é o homem habitante dessa terra sinistra e caminha de acordo com sua força, sua idade e sua disposição. se for preciso amar, ele ama, se for preciso matar, ele mata, se for preciso fugir, foge e não há outros meios de atingi lo senão pelas suas próprias ambições. Peixe morto pela boca, passarinho preso na arapuca, homem cativo do dinheiro. Homem pai da solidão, é ele, e mais ninguém, o beijo universal e variante de nossos medos.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
O Menino.
Na
rua da minha casa tem um menino que não cansa de brincar. Todo dia, lá pela hora
da Ave Maria, ele vem cansado de jogar bola e me pede um copo d’água. Pergunto
a ele o que ele vai ser quando crescer, e ele me diz, sem tirar os olhos do copo,
que vai ser um cara legal, que vai estudar muito e vai ser grande, mas não
grande no sentido de ser alto, vestir calça comprida e carregar na mão esquerda
uma pasta cheia de papéis, mas ele diz, muito cheio de certeza, que vai ser
grande nas suas idéias, nas suas vontades e que vai poder fazer tudo que ele
gosta de fazer.
Quem
sabe se ele está certo sobre tudo isso? Quem dirá a ele que há outros caminhos
que ele pode trilhar? Quem pensará nele quando ele ganhar a vida como quem
ganha a jóia mais preciosa de nossa fé?
Na
simplicidade de sua idade, ele lança sobre meu conhecimento de mundo coisas
novas que eu jamais sequer parei para refletir. Era dia de bolo e guaraná para
ele e eu pensava saber de tudo que esses dias tinha me ensinado no decorrer do
tempo, mas estava errado quando me achei convencido pela sua infância que o sol
é invenção grande, das que se inventa na escola.
Eu
tinha duas pedras
Uma azul,
outra amarela
Com a
azul, eu fiz uma pérola
Com a
amarela quebrei tua janela
Das
pedras que eu tinha
Só as
cores ficou
Do
azul eu joguei para o céu
Da amarela
pintei o sol
Das cores
que eu tinha
Eu usei
como bem quis
Fiz sol,
também fiz céu
E no
tédio disso tudo, fui dormir
O danado
me entregou o copo, agradeceu e seguiu rua abaixo – ouviu a mãe chamar na
esquina – e no portão da minha casa fiquei, fiquei tanto tempo que amanheceu e,
ainda de copo e garrafa na mão, fiquei ali por muito tempo, até a hora que ele voltaria
do campinho, com a bola na mão e a amizade no coração, para beber água
novamente...
A Mulher.
O sal azedo da lágrima cor de sangue pinta nossa visão de terror e
tristeza. O sal forra o chão dessa estrada sem fim, sem caminho, sem uma onda
de sorriso ausente nas tardes de pavor e desassossego. O sal, salgado, cor de
ódio, fere os olhos chorosos das crianças mortas, de rosto inerte e agredido na
sua espiritualidade interrompida. Não há gosto nesse sal para se saborear, não
há vontade de ter gosto nessa fome de paz, não há paz nessa eterna necessidade
de provar, com o apetite próprio dos perversos, o mal gosto de desespero na
lágrima do submetido.
A mulher percorre os objetos desse mundo estranho, configurado na
solidão dos que gostam do bem, dos que amam por amar, a mulher sofre a ausência
do filho, roubado no dia das dores do oriente absorvido na areia regada pelas
chuvas de bombas e fogo bandido, a mulher percorre o mundo, enquanto a lágrima
perdida, desorientada na eterna fuga do incompreensível, percorre seu rosto por
todas as direções do perigo, de um céu duvidoso nos dias de hoje. A mulher é o
retrato da tristeza na sua viagem pelas terras secas de nossos olhos
televisivos, que olham como quem vê algo não real, que não faz sentido e que
não nos desperta o perigo da mensagem real do coração sombrio daqueles que, de
armas em punho, mirada contra o rosto da via láctea, faz brotar na carne dos
olhos escuros o mel da tristeza.
As manhãs surgem no espelho quebrado da vaidade humana, essa
vaidade que fere os sonhos tristes, já desanimados, de ver nas vias dos longos
quintais o nascer dos alimentos, dessas frutas capazes de confortar e matar a
fome chorosa dos que sofrem. A mulher leva nas mãos um cacho de frutas e sobre
a cabeça vai a estrela da seara universal de incontáveis pedidos de amor
vigiado no conforto das pequenas casas, moradia da paz e espaço de preciosa
liberdade.
Os astros circulam pelos cantos das casas, pelas ruas povoadas de
gente morta, pelas luzes ausentes nesse buraco onde estamos, e nos dizem o
grande aviso evidente, que estamos no mal caminho da evolução humana, que
jamais encontraremos Deus no meio de tantas explosões bélicas desses gritos de
ira, esse grito que mata as plantas, as pessoas, os pobres cachorrinhos e o
mundo na sua simples composição. Jamais seremos felizes enquanto não houver
alegria para a Palestina, jamais seremos felizes enquanto a mulher chorar essa
lágrima azeda de sal.
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